quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Acabei me apaixonando pelo alienígena!" Zeca Camargo fala de entrevista com Courtney Love ao Fantástico

Essa  postagem é do blog do Zeca Camargo, jornalista da Rede Globo, sobre sua entrevista para o Fantastico, com a lider da Hole em sua breve passagem pelo Brasil, diferente das várias materias negativas sobre Courtney, é uma materia bem divertida como a propria vocalista, sou suspeita para falar já que conheço bem a banda e suas histórias, além de muito fã do trabalho da Hole.

 Courtney Love, sempre preocupada com sua imagem, pergunta de repente numa das raras pausas que deu nos 45 minutos quase ininterruptos do monólogo que apresentou: “Posso falar palavrão?”. Claro que pode, eu respondo. E um dos primeiros deles vai para… Kurt Cobain!



Na minha – sem falsa modéstia – vasta experiência em entrevistar artistas do mundo da música, eu nunca havia passado por uma situação como essa. De Lady Gaga a Paul McCartney, digamos que já passei por uma “fauna” das mais variadas e divertidas – para não dizer surpreendentes. A própria Courtney já tinha entrado para essa lista, num encontro “antológico”, menos pelo conteúdo da entrevista do que pelas nove horas (sim, nove horas) que ela me fez esperar para conversarmos. (Quando escrevi o livro de “De a-ha a U2”, contei sobre esse bastidores e “cravei” que esse tinha sido o recorde de “aluguel” que um artista jamais tinha me dado – oficialmente, o encontro, que foi em Nova York, estava previsto para 16h, e acabou acontecendo tipo 01h da manhã – e é um alívio para mim confirmar que sua marca ainda não foi superada… mas eu divago…).

Durante o Show da Hole em Paulinia no SWU
Minha expectativa era a de que ela não atrasasse tanto no novo encontro que estava marcado para este sábado passado, às 13h, em São Paulo. Até porque eu não tinha o tempo todo para ela – tinha de pegar um avião às 16h para vir para o Rio e já começar a trabalhar no “Fantástico”. E ela mesma, imaginei, tinha lá seus compromissos para com o festival onde ela iria tocar – Courtney, como você talvez esteja acompanhando, é uma das atrações do SWU, o festival de música e “conscientização” que termina hoje (e que eu, infelizmente, não pude conferir desta vez…). Mas a primeira informação que chegou não era boa: seus assessores já estavam passando a entrevista para 14h, com a desculpa de que ela (Courtney) não havia dormido nada e que precisava se arrumar para estar bem no encontro.

Bem… pelo menos a parte de “não ter dormido à noite” não era mentira. Nem a de que ela queria estar bem no encontro. Ao adentrar a sala do hotel reservada para a gravação – com surpreendentemente modestos 15 minutos de atraso (na verdade, 75 minutos, se formos contar o acerto original, mas ninguém aqui quer ser mesquinho…) – ela foi logo dizendo que não havia pregado os olhos. E estava de fato exuberante – aliás, com uma roupa que, soube logo de antemão, é da nova grife de roupas que está desenvolvendo. De fato, a mulher entrou com tudo, com uma energia que mesmo eu  senti um pouco de inveja. A única coisa que talvez entregasse sua idade (47 anos) eram os óculos que ela tinha sempre à mão para ler alguma coisa de perto. De resto, Courtney Love era um dínamo. E, com isso, eu tinha um problema.

Essas entrevistas com grandes estrelas – e, sim: antes que você faça uma gracinha, Courtney está nessa lista – são “jogo rápido”. Como já mencionei algumas vezes aqui (e já descrevi mais amiúde no meu livro já citado hoje), raras são as que duram mais de dez minutos. Nós, jornalistas acostumados a esse esquema, já trabalhamos com essa “janela de tempo” – preparamos uma entrevista para esses dez/doze minutos. E eventualmente torcemos para que a gente ganhe uns minutos extras! Porém, neste sábado eu estava com meus horários ligeiramente apertados – e, por mais contraditório que isso possa parecer, eu estava torcendo para ter apenas os dez minutos de praxe com Courtney! Eu realmente precisava sair daquele lugar às 15h! Só que eu não contava com uma mulher totalmente sem freios falando indefinidamente num pique que era admirável! Como eu deveria administrar aquilo?
Courtney no SWU

Sua entrada já foi triunfal – esvoaçante! Veio carregando seu “caderno de desenhos” e me mostrando o que tinha “produzido” durante a madrugada: um esboço de uma mulher nua, sangrando, crucificada (uma poesia de Plabo Neruda – segundo ela – completava a composição). Não ouve uma introdução, uma apresentação – nada. Ela simplesmente começou a falar. E a falar. E a falar. E falava de quê? De tudo, sem nenhum filtro, sem nenhuma edição. Mais de uma vez eu tentei focar em um assunto – mas logo percebi que seria um esforço inútil. Numa análise rápida, isso poderia parecer “a entrevista dos infernos” – e quase foi mesmo, não fosse o fato de a própria Courtney ter se apresentado dessa vez como a mais simpática de todas as divas do rock!

Que diferença do nosso “primeiro encontro”… Foi no início dos anos 90, quando ela veio acompanhando Kurt, naquela passagem histórica do Nirvana pelo Brasil. O que eu queria mesmo era entrevistar seu marido, mas ela estava sempre presente “cuidando” da agenda dele – leia-se “atrapalhando nosso trabalho”. Foi um acerto difícil, como eu conto em “De ah-a a U2” (e prometo que essa é a última vez que eu cito o livro!), mas quando chegamos para a entrevista ele estava no estúdio com a banda dela, a Hole. E quando, depois de horas, já de madrugada, fez-se o silêncio, e nós nos preparamos para falar com ele, ela chega e anuncia, com ares nada amigáveis: “Kurt está dormindo – e ninguém acorda Kurt quando ele dorme”. Se quiséssemos conversar com ele, seria quando ele despertasse… O que só aconteceu horas depois, já quase de manhã…

Depois disso, teve o episódio das nove horas de espera, quando o maior obstáculo não era exatamente ela, mas uma de suas produtoras, que sempre chegava anunciando um novo atraso e reclamando do cenário que havíamos montado (e remontado a cada vez que ela pedia para mudar tudo!). Deveríamos ter falado antes da sua passagem de som numa casa de shows em Times Square, o Roseland. Mas foi ficando para depois da passagem, depois teve a maquiagem, depois o show da banda de abertura, depois o show dela, depois a festa dela no camarim… até que à 1h da manhã ela estava pronta para mim! Quando chegou, se não foi exatamente simpática, foi pelo menos profissional – apesar de não ter dado a menor bola para o atraso…

Essas experiências anteriores me prepararam para… Bem, não me prepararam exatamente para nada! Eu sabia que poderia esperar qualquer coisa de Courtney Love. Mas a simpatia e extroversão me pegaram realmente desarmado! Ali, diante de mim, estava um furacão – de assuntos, de opiniões, de confissões… E eu não estava sabendo bem o que fazer com tudo aquilo. De vez em quando vinha um momento de lucidez – com quando ela falou de Cameron Crowe, o diretor de cinema (que, diz ela, é um grande amigo pessoal), e, lembrando que o seu filme mais recente é “Pearl Jam Twenty” (ainda inédito no Brasil), que celebra o aniversário da banda, e que traz raras imagens de Kurt Cobain, eu vejo uma brecha para falar daqueles tempos loucos em que Jam & Nirvana eram os dois nomes mais poderosos do rock. Ela faz então uma pausa, diz que foi ela que colocou Vedder e Cobain juntos… e imediatamente parte para falar de outro assunto!

Isso se repetiu várias vezes. Quando, logo após perguntar se poderia falar palavrões ela mandou um para Kurt, eu achei que poderia tirar dela algumas lembranças dessa figura que é idolatrada até hoje. Mas, como sempre, o fio da conversa não dava em nada. Ou quando ela começou a reclamar de dinheiro, e praguejou contra os ex-colegas de Kurt no Nirvana – Chris Novoselic e Dave Grohl (Foo Fighters). “Eles me roubaram, roubaram o dinheiro de Frances!”, praguejava ela. Mas o assunto também não ia adiante. Nem quando eu perguntei se poderia comprar um de seus desenhos – achei que um interesse numa coisa sobre a qual ela estava se debruçando naquele momento poderia capturar sua atenção – eu consegui mais do que alguns segundos de conexão (para registro, ela não quis me falar o preço da sua “obra”, mas insistiu que é isso que vai fazer dela uma mulher rica!). E assim nossa conversa foi rolando não apenas por dez, mas quinze, vinte, trinta e cinco minutos…

Quando fechamos 40 minutos, comecei a me despedir. Deixei claro que eu tinha um compromisso – com ela mesma: o de levar o material da própria entrevista para ser editado no Rio. Mas ela se mostrou totalmente indiferente ao meu apelo. Courtney continuava falando e falando – e agora também queria desenhar! Pegou o caderno e os lápis e seguiu “criando” – escrevendo mais coisas, e incluindo até meu nome no papel! Levantei-me e fui definitivo: “Preciso ir”. Ela olha para a minha camiseta e, sem mais nem menos, mostra-se extremante interessada no desenho de cores dela. E agora? Ela está grudada na minha camiseta!! “Vou embora”, insisti mais uma vez – e ela me pediu só mais um minuto para me mostrar uma música em seu iPad. Nãooooooo!

À beira do desespero, viro-me para seu produtor e suplico: “Tome conta dela”… Nunca, nunca mesmo, eu mesmo coloquei um ponto final numa entrevista. Mas eu tinha de ir! E saí às pressas, sem me dar conta de que Courtney, segundos após eu ter dado as costas para ela, já estava se distraindo com outras coisas… Só quando eu vi a matéria finalmente editada percebi que “nossa relação” não seria duradoura… Magoei…

Foram 45 minutos ensandecidos – com momentos de bipolaridade patológica (como encarar uma mulher que uma hora se considera “irrelevante” e em seguida “poderosa”?). Mas, como diz o título do clássico de David Bowie evocado no título de hoje, eu acabei me apaixonando pelo alienígena! E mal posso esperar pela próxima vez que a gente se encontrar…

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